Você acorda e vai trabalhar. Faz o que precisa fazer. Converse com as pessoas certas. Toma as decisões esperadas. E no final do dia, há uma sensação estranha: você não se reconhece. Como se estivesse assistindo sua própria vida de fora. Como se estivesse interpretando um papel que alguém escreveu para você, mas você nunca escolheu o roteiro.
Essa sensação de estar vivendo a vida de outra pessoa não aparece de repente. Ela se acumula. Decisão após decisão que você tomou baseado no que era esperado, não no que você queria. Ano após ano moldando-se ao que os outros precisavam, esquecendo de perguntar o que você precisava. E agora você está aqui, em uma vida que tecnicamente é sua, mas que não parece sua.
Escrita não vai resolver isso muito rapidamente. Mas vai te ajudar a começar a se encontrar. Por meio de exercícios específicos, você consegue identificar onde você se perdeu, quem você realmente é sob as camadas de expectativas, e o que você precisa fazer para voltar a viver sua própria vida. Porque talvez o que você deixou para trás não foi apenas uma versão autêntica de si mesmo, mas a coragem de admitir que está vivendo a vida errada.
Exercício 1: Mapeie as expectativas versus seus desejos
Este exercício te ajuda a ver onde há desalinhamento entre o que você faz e o que você quer.
Como fazer:
Divida uma página em duas colunas. Na primeira, escreva “O que é esperado de mim”. Na segunda, “O que eu realmente quero”.
Preencha linha por linha:
Trabalho:
- Esperado: Que eu continue nesta carreira, que eu cresça, que eu seja ambicioso.
- Eu quero: Trabalhar com algo que tenha propósito, mesmo que ganhe menos.
Relacionamentos:
- Esperado: Que eu case, tenha filhos, construa família tradicional.
- Eu quero: Descobrir o que realmente quero, sem pressão de cronograma.
Estilo de vida:
- Esperado: Que eu compre casa, tenha carro, demonstre sucesso.
- Eu quero: Viver com menos coisas, mais experiências, mais liberdade.
Depois de preencher, circule os pontos onde há maior desalinhamento. Esses são os lugares onde você está vivendo a vida de outra pessoa.
Exercício 2: Escreva “Quem eu seria se ninguém estivesse olhando”
Este exercício remove o peso das expectativas externas.
Como fazer:
Complete a frase repetidamente: “Se ninguém estivesse olhando, eu…”
Exemplos:
- “Se ninguém estivesse olhando, eu largaria este trabalho e tentaria ser escritor.”
- “Se ninguém estivesse olhando, eu terminaria este relacionamento que não me faz feliz.”
- “Se ninguém estivesse olhando, eu me mudaria para o interior e viveria mais devagar.”
- “Se ninguém estivesse olhando, eu admitiria que não quero ter filhos.”
- “Se ninguém estivesse olhando, eu seria mais honesto sobre quem eu amo.”
Escreva pelo menos dez frases. Não censure. Não julgue. Apenas escreva o que é verdade quando ninguém está olhando.
Depois, releia. As respostas que te assustam mais são as mais importantes. Porque medo indica verdade que você está evitando.
Exercício 3: Diálogo com seu eu de 10 anos atrás
Este exercício te reconecta com quem você era antes de começar a viver para outros.
Como fazer:
Escreva uma carta para você de dez anos atrás. Conte como está sua vida agora. Seja honesto:
“Oi, eu de dez anos atrás. Hoje estou [descreva sua vida]. Sei que você sonhava com [sonhos antigos]. Mas acabei fazendo [o que realmente fez]. Não porque era o que você queria, mas porque [razões].”
Depois, escreva a resposta que seu eu de dez anos atrás daria. O que ele diria sobre suas escolhas? Ele te reconheceria?
Exemplo de resposta: “Eu não te reconheço. Você parece cansado. Parece que desistiu dos sonhos que tínhamos. Por quê? O que aconteceu? Quando você parou de ser você?”
Este diálogo revela o momento onde você começou a viver a vida de outra pessoa.
Exercício 4: Liste “Coisas que eu faço que não são minhas”
Este exercício identifica comportamentos que você adotou mas que não são seus.
Como fazer:
Liste tudo que você faz regularmente mas que não parece seu:
- “Vou a eventos sociais que me drenam porque é esperado.”
- “Finjo gostar de conversas superficiais no trabalho.”
- “Posto nas redes sociais uma versão de mim que não é real.”
- “Concordo com opiniões que não são minhas para evitar conflito.”
- “Uso roupas que não gosto porque é o dress code.”
Depois de listar, pergunte para cada item: “Por que eu faço isso? O que aconteceria se eu parasse?”
Frequentemente você descobre que as consequências de parar são menores do que você imagina.
Exercício 5: Escreva “Momentos onde eu me senti eu mesmo”
Este exercício te mostra onde você ainda existe, mesmo que escondido.
Como fazer:
Pense nos últimos meses. Quando você se sentiu mais você? Liste esses momentos:
- “Quando estava sozinho caminhando.”
- “Quando conversei honestamente com aquele amigo.”
- “Quando fiz aquele projeto paralelo que ninguém sabe.”
- “Quando disse não para algo que não queria fazer.”
Depois, procure padrões: O que esses momentos têm em comum? Onde você estava? Com quem? Fazendo o quê?
Esses padrões revelam quem você realmente é. E quanto mais você criar condições para esses momentos, mais você volta a viver sua própria vida.
Exercício 6: Complete “Eu finjo que…”
Este exercício expõe as máscaras que você usa.
Como fazer:
Complete a frase repetidamente: “Eu finjo que…”
Exemplos:
- “Eu finjo que gosto do meu trabalho.”
- “Eu finjo que estou feliz neste relacionamento.”
- “Eu finjo que me importo com coisas que não me importam.”
- “Eu finjo que sou extrovertido quando sou introvertido.”
- “Eu finjo que quero o que todo mundo quer.”
Escreva pelo menos dez. Depois, para cada um, pergunte: “Por que eu finjo? O que eu temo que aconteça se eu parar de fingir?”
Frequentemente o medo é maior que a realidade.
Exercício 7: Escreva uma carta de demissão da vida de outra pessoa
Este exercício cria um marco simbólico.
Como fazer:
Escreva uma carta formal demitindo-se da vida que você está vivendo:
“Prezada vida de outra pessoa,
Escrevo para informar minha demissão. Agradeço pelos anos de serviço, mas não posso mais continuar vivendo desta forma. Não porque você seja ruim, mas porque não é minha.
A partir de hoje, escolho viver minha própria vida. Isso significa [liste mudanças específicas que você quer fazer].
Sei que haverá consequências. Sei que pessoas vão questionar. Mas não posso mais viver para expectativas externas.
Atenciosamente, [Seu nome]”
Você não precisa enviar para ninguém. Mas escrever cria compromisso interno.
Exercício 8: Planeje “Pequenas rebeliões”
Este exercício transforma consciência em ação.
Como fazer:
Liste pequenas coisas que você pode fazer esta semana que são mais você:
- “Vou usar aquela roupa que gosto mas nunca uso.”
- “Vou dizer não para um compromisso que não quero.”
- “Vou passar uma noite fazendo algo que me interessa, não o que é produtivo.”
- “Vou ter uma conversa honesta sobre algo que importa.”
Pequenas rebeliões acumuladas criam vida autêntica.
O que muda quando você faz esses exercícios
Quando você escreve sobre estar vivendo a vida de outra pessoa, você começa a se ver. E ver é o primeiro passo para mudar. Você identifica onde se perdeu. Reconhece quem você realmente é. E começa, aos poucos, a fazer escolhas que te trazem de volta.
Não é rápido. Não é fácil. Mas é possível. E cada pequena escolha autêntica te aproxima de uma vida que é verdadeiramente sua.
Comece hoje
Escolha um exercício acima. Apenas um. E faça agora. Não amanhã. Agora. Porque quanto mais você adia, mais você continua vivendo a vida de outra pessoa. E você merece viver a sua.
Porque talvez o que você deixou para trás não foi apenas uma versão autêntica de si mesmo, mas a coragem de admitir que a vida que você está vivendo não é sua. E recuperar essa coragem, através da escrita, pode ser o começo de finalmente construir uma vida que você reconhece como verdadeiramente sua.




