Como separar o que você quer do que o mundo espera de você

Uma das confusões mais profundas que você pode viver é não saber mais onde termina o que você quer e onde começa o que os outros esperam de você. Porque desde cedo você aprende a moldar seus desejos de acordo com aprovação externa. A agradar, a se encaixar, a querer o que é esperado que você queira. E com o tempo, essas expectativas externas se infiltram tão profundamente que você as confunde com vontade própria. Você acha que quer algo quando na verdade está somente respondendo a uma programação antiga de buscar aceitação.

Separar o que é genuinamente seu do que foi implantado por família, sociedade, cultura, relacionamentos, não é fácil. Porque essas vozes externas não gritam. Elas sussurram disfarçadas de bom senso, de responsabilidade, de “é assim que as coisas são”. E você vai vivendo, fazendo escolhas, construindo uma vida que de fora parece certa, mas que por dentro não ressoa. Até que um dia você acorda e percebe que está vivendo a vida que alguém esperava que você vivesse, não a vida que você realmente quer.

Estas perguntas existem para te ajudar a fazer essa separação. Para identificar onde você está seguindo o script de outra pessoa e onde está sendo autêntico. Não são perguntas fáceis, porque exigem que você questione coisas que talvez tenha construído a vida inteira. Mas são necessárias. Porque viver a vida que os outros esperam de você pode te dar aprovação, mas nunca vai te dar plenitude. E chega um momento em que você precisa escolher: continuar agradando ou começar a viver de verdade.

Perguntas sobre carreira e trabalho

Se você soubesse que ninguém ia perguntar “o que você faz da vida”, você ainda estaria na carreira que está? Ou você escolheu esse caminho porque soa bem quando você conta para os outros?

Quando você pensa no seu trabalho ideal, a primeira imagem que vem é realmente sua ou é algo que você viu sendo valorizado por outras pessoas? Você quer aquilo ou quer a admiração que vem com aquilo?

Se dinheiro não fosse problema e status social não existisse, você ainda faria o que faz? E se a resposta for não, o que você estaria fazendo?

Que parte do seu trabalho você faz porque realmente importa para você e que parte você faz porque “é o que se espera de alguém na sua posição”?

Você está construindo a carreira que quer ou a carreira que seus pais gostariam que você tivesse? Mesmo que eles nunca tenham dito explicitamente, você sente que está cumprindo expectativas deles?

Perguntas sobre relacionamentos e vida pessoal

Você está no relacionamento que está porque ama a pessoa ou porque já investiu tempo demais, porque a família aprova, porque “já passou da hora de se estabelecer”?

Que característica do seu parceiro você valoriza porque realmente importa para você e qual você valoriza porque é o que “todo mundo diz que é importante em um relacionamento”?

Se você pudesse desenhar sua vida social ideal, sem se preocupar com o que as pessoas vão pensar, como seria? Mais pessoas ou menos? Mais festas ou mais silêncio? Mais conexões superficiais ou poucas conexões profundas?

Você quer ter filhos ou sente que deveria querer? E se você já tem filhos, está criando eles do jeito que acredita ou do jeito que te disseram ser certo?

Que amizade você mantém mais por hábito ou por medo de magoar do que por conexão genuína? E o que isso está te custando?

Perguntas sobre estilo de vida e escolhas diárias

Onde você mora é onde você quer morar ou onde você acha que deveria morar? Cidade grande porque “é onde as oportunidades estão”? Bairro específico porque “é onde pessoas como você moram”?

Como você gasta seu dinheiro reflete o que você valoriza ou o que você acha que deveria valorizar? Você compra coisas que realmente quer ou coisas que sinalizam quem você deveria ser?

Sua rotina diária foi construída por você ou foi herdada de expectativas sobre como uma pessoa produtiva, responsável, adulta deveria viver?

Você se veste do jeito que gosta ou do jeito apropriado para sua idade, profissão, contexto social? Se ninguém fosse te ver, você se vestiria diferente?

Que atividade você faz regularmente que, se fosse honesto, faz mais por obrigação social do que por vontade própria? Academia, happy hours, eventos, compromissos familiares?

Perguntas sobre valores e prioridades

Quando você pensa em sucesso, a definição é sua ou é um composto de tudo que você ouviu a vida inteira sobre o que significa ser bem-sucedido?

Você valoriza estabilidade porque realmente precisa dela ou porque te ensinaram que pessoas responsáveis escolhem segurança acima de tudo?

Que sonho você abandonou porque alguém disse ser impraticável, imaturo ou egoísta? E você realmente concordou ou somente aceitou o julgamento?

Suas prioridades atuais refletem o que importa para você ou o que você acha que deveria importar nesta fase da vida? “Aos 30 você deveria estar focado em carreira”, “aos 40 em família”, “aos 50 em estabilidade”.

Se você pudesse viver sem se preocupar com o que as pessoas vão pensar, que valor você colocaria no topo da lista que hoje fica escondido ou secundário?

Perguntas para identificar a voz dos outros dentro de você

Quando você decide importante, de quem é a voz que você ouve na sua cabeça? Sua mãe? Seu pai? Um professor? Um ex? A sociedade em geral?

Que frase você repete para si mesmo que na verdade não é sua? “Você precisa ser prático”, “Não dá para viver de sonhos”, “Isso não é para pessoas como você”. De quem é essa frase originalmente?

Quando você se sente culpado por querer algo, de onde vem essa culpa? Quem te ensinou que aquele desejo é errado, egoísta ou inadequado?

Que parte de você sente que precisa esconder para ser aceito? E quem estabeleceu que aquela parte não é aceitável?

Se você pudesse decepcionar uma pessoa sem consequências emocionais, quem seria e o que você faria diferente? Isso revela de quem são as expectativas que mais te prendem.

Como fazer essa separação na prática

Não tente responder todas as perguntas de uma vez. Escolha as que mais te incomodam, as que fazem seu estômago apertar um pouco. Essas são as que tocam em verdades que você tem evitado olhar.

Escreva duas colunas: “O que eu quero de verdade” e “O que esperam de mim”. Para cada área da sua vida, tente preencher ambas as colunas com honestidade brutal. Você vai perceber que algumas coisas estão nas duas colunas, e tudo bem. Mas outras vão estar apenas na coluna das expectativas externas, e essas precisam de atenção.

Pergunte-se: “Se eu tivesse crescido em outro contexto, com outra família, em outra cultura, eu ainda quereria isso?” Se a resposta é não, então provavelmente não é seu desejo genuíno. É condicionamento.

Identifique as áreas onde há maior dissonância entre o que você quer e o que está vivendo. Não precisa mudar tudo de uma vez. Mas precisa pelo menos reconhecer onde está vivendo a vida de outra pessoa. Porque reconhecimento é o primeiro passo para qualquer mudança real.

O custo de viver para as expectativas dos outros

Viver a vida que os outros esperam de você tem um preço. Pode ser depressão que você não entende de onde vem. Pode ser ansiedade constante de nunca estar à altura. Pode ser sensação de vazio mesmo quando você está “fazendo tudo certo”. Pode ser raiva que você não sabe contra quem direcionar. Porque quando você trai a si mesmo para agradar outros, seu corpo e sua mente cobram a conta.

E o mais triste é que, muitas vezes, as pessoas cujas expectativas você está cumprindo nem percebem ou se importam tanto quanto você imagina. Você está sacrificando sua autenticidade por aprovação que talvez nem seja tão importante assim para quem você está tentando agradar. Está vivendo uma vida inteira baseada em suposições sobre o que os outros querem de você.

Mas aqui está a verdade libertadora: você não precisa de permissão de ninguém para querer o que quer. Não precisa justificar seus desejos, não precisa que eles façam sentido para outras pessoas. Seus desejos genuínos são válidos simplesmente porque são seus. E viver de acordo com eles não é egoísmo. É integridade.

Separar não é abandonar, é escolher conscientemente

Fazer essa separação entre o que é seu e o que é dos outros não significa necessariamente jogar tudo fora e começar do zero. Às vezes você vai descobrir que o que os outros esperam de você também é o que você quer. E nesses casos, a diferença é que agora você está escolhendo conscientemente, não seguindo no automático.

Mas em outras áreas, você vai descobrir que está vivendo uma mentira. Que está em um caminho que não é seu. E aí, sim, você precisa decidir: vai continuar nesse caminho porque é mais fácil, mais seguro, mais aceito? Ou vai ter a coragem de mudar de direção, mesmo que isso decepcione pessoas, mesmo que isso gere julgamento, mesmo que isso te coloque em território desconhecido?

Porque no final, a única vida que você realmente tem que viver é a sua. E quando você chegar ao fim dela, não vai importar quantas expectativas você cumpriu. Vai importar se você foi honesto consigo mesmo, se teve coragem de querer o que realmente queria, se viveu de acordo com sua verdade e não com o script que te entregaram.

Então faça essas perguntas. Separe o que é seu do que é dos outros. E então, com essa clareza dolorosa mas libertadora, comece a fazer escolhas diferentes. Pequenas escolhas no começo, talvez. Mas escolhas que te levam para mais perto de quem você realmente é e mais longe de quem esperavam que você fosse. Porque talvez o que você deixou para trás não foi apenas seus desejos genuínos, mas a coragem de vivê-los, mesmo quando o mundo inteiro esperava outra coisa de você.

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