Como escrever com receio e continuar mesmo assim

A vergonha aparece no momento em que você coloca a primeira palavra no papel. Não é uma vergonha racional, que você consegue explicar ou justificar. É aquela sensação visceral de estar se expondo demais, de estar sendo dramático, de estar dando importância exagerada aos seus sentimentos. E mesmo sabendo que ninguém vai ler, mesmo estando completamente sozinho, a vergonha está lá, sussurrando que você deveria parar.

Escrever sobre você mesmo é um dos atos mais vulneráveis que existe. Porque você está admitindo coisas que normalmente esconde. Está reconhecendo fraquezas, medos, desejos que não combinam com a imagem que projeta para o mundo. E mesmo que seja apenas para você, há algo em ver essas verdades escritas que as torna mais reais, mais inegáveis. A vergonha é a resistência da sua mente contra essa exposição.

Mas aqui está o segredo que poucos te contam: a vergonha não desaparece. Você não vai escrever o suficiente até que ela suma completamente. O que muda é a sua relação com ela. Você aprende a escrever apesar da vergonha, com a vergonha, atravessando a vergonha. E é justamente nesse atravessar que a transformação acontece. Porque do outro lado da vergonha está a liberdade de ser quem você realmente é, sem máscaras, sem performances.

De onde vem essa vergonha

A vergonha de escrever sobre si mesmo não nasceu com você. Foi aprendida. Desde cedo, você recebeu mensagens sobre o que é aceitável sentir e expressar. Que reclamar é frescura. Que demonstrar vulnerabilidade é fraqueza. Que se ocupar demais consigo mesmo é egoísmo. Essas mensagens se acumularam e criaram uma voz interna que te julga sempre que você tenta olhar para dentro.

Quando você senta para escrever sobre seus sentimentos, essa voz aparece imediatamente. “Isso é bobagem.” “Você está exagerando.” “Tem gente passando por coisas piores.” “Ninguém se importa com isso.” E mesmo sabendo que você está escrevendo apenas para si, a voz continua. Porque ela não precisa de audiência real. Ela é a audiência internalizada, o julgamento que você carrega dentro.

Essa vergonha também vem do medo de se conhecer de verdade. Porque se você escrever com honestidade, vai descobrir coisas sobre si mesmo que preferia não saber. Vai reconhecer padrões que te envergonham, sentimentos que julga inadequados, pensamentos que considera mesquinhos ou egoístas. E há uma parte de você que prefere a ignorância confortável à consciência desconfortável.

Além disso, vivemos em uma cultura que valoriza a produtividade externa acima da reflexão interna. Escrever sobre si mesmo parece improdutivo, autoindulgente, perda de tempo. Você poderia estar fazendo algo útil, resolvendo problemas práticos, sendo eficiente. A vergonha, então, também carrega esse julgamento de que você está se permitindo algo que não deveria.

A vergonha aumenta quando você tenta esconder

O paradoxo da vergonha é que quanto mais você tenta evitá-la, mais poder ela ganha sobre você. Quando você para de escrever porque está com vergonha, está reforçando a mensagem de que aquilo que você sente não merece ser expresso. Está concordando com a voz que diz que você deveria se calar.

Muitas pessoas começam a escrever sobre si mesmas e, no meio do caminho, sentem uma onda de vergonha tão forte que fecham o caderno. Param no meio da frase. Apagam o que escreveram. E cada vez que fazem isso, a vergonha se fortalece. Porque você está ensinando a si mesmo que ela tem razão, que você realmente deveria ter vergonha de sentir o que sente.

A vergonha se alimenta do segredo, do não dito, do escondido. Quando você escreve apesar dela, está fazendo o oposto. Está trazendo para a luz exatamente o que ela quer manter na sombra. E luz desinfeta. O que parecia monstruoso quando estava escondido se torna gerenciável quando está no papel, visível, nomeado.

Pense em quantas vezes você já sentiu vergonha de algo e, ao contar para alguém de confiança, percebeu que não era tão terrível quanto imaginava. A escrita faz algo parecido, mas sem precisar de outra pessoa. Você está confessando para si mesmo, e essa confissão, por si só, reduz o poder da vergonha.

Escreva mal de propósito

Uma das formas mais eficazes de lidar com a vergonha de escrever sobre si mesmo é escrever deliberadamente mal. Porque parte da vergonha vem da expectativa de que, se você vai se expor, pelo menos deveria fazer isso de forma eloquente, profunda, digna de ser lida. Mas e se você simplesmente não se importasse com isso?

Escreva frases desconexas. Use palavras repetidas. Seja redundante, confuso, banal. Permita-se escrever exatamente como pensa, sem filtro, sem edição, sem tentar soar inteligente ou articulado. Quando você remove a pressão de escrever bem, remove também parte da vergonha. Porque não há performance a ser julgada.

Muitas pessoas descobrem que escrever mal é libertador. É como tirar uma roupa apertada e vestir algo confortável. Você não está tentando impressionar ninguém, nem mesmo a si mesmo. Está apenas despejando o que está dentro, da forma mais crua possível. E nessa crueza, há uma honestidade que a escrita polida nunca alcança.

Experimente começar suas sessões de escrita com a intenção explícita de escrever o pior texto possível. Veja isso como um jogo, um desafio às avessas. Quanto mais banal, repetitivo e mal escrito, melhor. Você vai perceber que, paradoxalmente, quando tira a pressão de escrever bem, frequentemente escreve coisas mais verdadeiras.

Nomeie a vergonha enquanto escreve

Em vez de tentar ignorar a vergonha, escreva sobre ela. Quando ela aparecer no meio do seu texto, pare e registre: “Estou sentindo vergonha agora de estar escrevendo isso.” Ou: “Essa frase me faz sentir ridículo.” Nomear a vergonha enquanto ela acontece tira parte do seu poder.

Quando você reconhece a vergonha no próprio texto, está fazendo duas coisas importantes. Primeiro, está validando que ela existe, que é real, que você não está imaginando. Segundo, está criando distância dela. Você não é a vergonha. Você é alguém que está observando a vergonha acontecer. Essa distinção é fundamental.

Muitas vezes, ao escrever sobre a vergonha, você descobre de onde ela vem. “Tenho vergonha de admitir que me sinto sozinho porque sempre fui o forte do grupo.” Ou: “Sinto vergonha de escrever sobre essa mágoa porque acho que já deveria ter superado.” A vergonha sempre tem uma história. E quando você a escreve, a história perde parte do seu poder.

Você também pode dialogar com a vergonha no papel. Escrever o que ela está dizendo e responder. “A vergonha diz que isso é bobagem. Mas eu preciso escrever mesmo assim porque está me pesando.” Esse diálogo transforma a vergonha de um sentimento avassalador em algo que você pode questionar, negociar, eventualmente desafiar.

Lembre-se de que ninguém precisa ler

Parte da vergonha vem da fantasia de que alguém vai ler o que você escreveu. Mesmo que você saiba racionalmente que seu diário é privado, há uma voz que imagina: “E se alguém encontrar isso? E se eu morrer e alguém ler?” Essa audiência imaginária te censura antes mesmo de você começar.

Mas aqui está a verdade: você pode destruir o que escreve. Pode rasgar as páginas depois. Pode escrever e deletar. Pode usar um aplicativo com senha. Pode até escrever e queimar o papel, se isso te ajudar a ser mais honesto. O importante é o ato de escrever, não a preservação do texto.

Muitas pessoas se libertam quando percebem que podem escrever sem a intenção de guardar. Escrevem tudo que precisam, processam o que precisavam processar, e depois destroem. O benefício já aconteceu. A clareza já veio. O texto não precisa existir para sempre para que tenha cumprido seu propósito.

Se a vergonha for muito forte, comece escrevendo coisas que você sabe que vai destruir. Faça disso um ritual. Escreva por dez minutos sobre o que mais te envergonha e, em seguida, rasgue ou queime o papel. Você vai perceber que consegue ser mais honesto quando sabe que aquilo não vai existir daqui a cinco minutos.

Continue mesmo quando a vergonha gritar

A vergonha vai gritar mais alto justamente quando você estiver chegando perto de algo importante. Quando você começar a escrever sobre aquilo que realmente dói, aquilo que você mais esconde, a vergonha vai tentar te parar. Ela vai dizer que você foi longe demais, que deveria parar agora, que isso é perigoso.

É exatamente nesse momento que você precisa continuar. Não porque seja fácil, mas porque é necessário. A vergonha é a guardiã das suas verdades mais profundas. Ela está ali justamente para te impedir de acessá-las. E quando você escreve apesar dela, está dizendo que suas verdades importam mais do que o desconforto de revelá-las.

Pense na vergonha como uma porta. Do lado de cá, você está seguro, protegido, mas também preso. Do outro lado está a liberdade, mas para chegar lá você precisa atravessar a porta. E atravessar significa sentir o desconforto, a exposição, a vulnerabilidade. Não há atalho. Não há como chegar à liberdade sem passar pela vergonha.

Cada vez que você escreve apesar da vergonha, você a enfraquece um pouco. Não porque ela desaparece, mas porque você prova para si mesmo que pode sobreviver a ela. Que pode sentir vergonha e continuar. Que pode se expor para si mesmo e não desmoronar. E essa é uma das lições mais poderosas que a escrita pode ensinar.

A vergonha é o preço da honestidade

No final, você precisa decidir o que é mais importante: conforto ou verdade. Porque você pode viver sem vergonha se nunca olhar para dentro com honestidade. Pode manter as máscaras, pode continuar fingindo, pode evitar as perguntas difíceis. E a vergonha vai te deixar em paz. Mas você também vai continuar preso, confuso, carregando peso que não consegue nomear.

Ou você pode escolher a honestidade. Pode escolher escrever sobre si mesmo mesmo quando dói, mesmo quando envergonha, mesmo quando cada célula do seu corpo pede para você parar. E sim, vai ser desconfortável. Vai ter momentos em que você vai querer desistir. Mas do outro lado desse desconforto está uma versão sua mais leve, mais consciente, mais inteira.

A vergonha é o preço da entrada. É o que você paga para ter acesso às partes de si que ficaram escondidas. E talvez, com o tempo, você perceba que esse preço vale a pena. Que a liberdade de se conhecer de verdade, de não precisar mais fingir nem para si mesmo, vale cada momento de vergonha atravessada.

Então escreva. Escreva com vergonha, através da vergonha, apesar da vergonha. Porque o que você descobre quando atravessa esse desconforto é que você é muito mais corajoso do que imaginava. E que as partes de você que mais te envergonham são, frequentemente, as mais humanas, as mais verdadeiras, as que mais merecem ser vistas e acolhidas.

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